O abortamento de repetição, também conhecido como aborto espontâneo recorrente, é definido como a ocorrência de três ou mais perdas gestacionais consecutivas antes das 20 semanas de gestação. Este problema afeta cerca de 1% dos casais que tentam engravidar e pode ser uma experiência devastadora tanto emocional quanto fisicamente. Este artigo tem como objetivo fornecer uma visão detalhada dos aspectos clínicos, exames diagnósticos e opções modernas de tratamento disponíveis para casais que enfrentam essa condição.
Aspectos Clínicos
Os abortos espontâneos podem ser classificados em duas categorias principais:
- Abortos de Primeiro Trimestre: Ocorrendo nas primeiras 12 semanas de gestação.
- Abortos de Segundo Trimestre: Ocorrendo entre 12 e 20 semanas de gestação.
As causas de abortamento de repetição podem ser variadas e incluem fatores genéticos, anatômicos, hormonais, imunológicos, infecciosos e trombofílicos.
- Fatores Genéticos:
- Anomalias cromossômicas nos pais, como translocações balanceadas.
- Anomalias cromossômicas no feto, muitas vezes detectadas por meio de cariótipo fetal.
- Fatores Anatômicos:
- Anomalias uterinas, como útero septado, útero bicorno, e sinequias uterinas.
- Incompetência istmo-cervical, levando a perdas no segundo trimestre.
- Fatores Hormonais:
- Insuficiência do corpo lúteo, resultando em deficiência de progesterona.
- Síndrome dos ovários policísticos (SOP), associada a anovulação e hiperinsulinemia.
- Fatores Imunológicos:
- Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo (SAF), caracterizada pela presença de anticorpos antifosfolipídeos.
- Problemas autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico (LES).
- Fatores Infecciosos:
- Infecções como clamídia, micoplasma, e ureaplasma.
- Trombofilias:
- Distúrbios de coagulação, como mutação do fator V de Leiden e mutação do gene da protrombina.
Exames Diagnósticos
A avaliação diagnóstica de abortamento de repetição envolve uma abordagem multifatorial, incluindo exames laboratoriais, de imagem e procedimentos invasivos. Os exames mais comuns incluem:
- Análise Genética:
- Cariótipo dos pais para identificar anomalias cromossômicas.
- Teste genético do tecido fetal em abortos anteriores.
- Avaliação Anatômica:
- Ultrassonografia transvaginal para visualizar a anatomia uterina.
- Histeroscopia para avaliação detalhada do interior do útero.
- Histerossalpingografia (HSG) para avaliar a cavidade uterina e as trompas de Falópio.
- Avaliação Hormonal:
- Dosagem de progesterona na fase lútea.
- Testes de função tireoidiana para excluir disfunções, como hipotireoidismo.
- Avaliação Imunológica:
- Testes para anticorpos antifosfolipídeos (anticardiolipina, anticoagulante lúpico, beta-2-glicoproteína I).
- Painel autoimune para detecção de LES e outras condições autoimunes.
- Avaliação de Trombofilias:
- Testes para mutação do fator V de Leiden, mutação do gene da protrombina, deficiência de proteína C e S, e antitrombina III.
Opções Modernas de Tratamento
O tratamento do abortamento de repetição é personalizado e depende da causa subjacente identificada. As opções de tratamento incluem:
- Tratamento Genético:
- Fertilização in vitro (FIV) com diagnóstico genético pré-implantacional (PGD) para selecionar embriões saudáveis.
- Tratamento Anatômico:
- Correção cirúrgica de anomalias uterinas por histeroscopia.
- Cerclagem cervical para incompetência istmo-cervical.
- Tratamento Hormonal:
- Suplementação de progesterona na fase lútea.
- Tratamento de disfunções tireoidianas.
- Tratamento Imunológico:
- Uso de heparina de baixo peso molecular e aspirina para SAF.
- Tratamento de condições autoimunes subjacentes com imunomoduladores.
- Tratamento de Trombofilias:
- Anticoagulação com heparina de baixo peso molecular e/ou aspirina.
- Tratamento Infeccioso:
- Antibioticoterapia direcionada para infecções identificadas.
Conclusão
O abortamento de repetição é uma condição complexa e multifatorial que exige uma abordagem diagnóstica abrangente e um tratamento personalizado. Com os avanços na medicina reprodutiva, muitos casais que enfrentam esse desafio podem alcançar uma gestação bem-sucedida com a orientação e tratamento adequados.
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Perguntas frequentes
Após quantas perdas gestacionais devo investigar?
A investigação costuma ser indicada após duas ou três perdas gestacionais consecutivas, mas pode começar já após a primeira perda em mulheres acima de 35 anos ou com fatores de risco conhecidos.
O abortamento de repetição sempre tem uma causa identificável?
Não. Mesmo após investigação completa, em uma parte dos casais nenhuma causa é encontrada. Isso não significa ausência de tratamento: a condução pode incluir acompanhamento mais próximo em uma nova gestação.
Quais exames fazem parte da investigação?
A investigação costuma incluir avaliação genética do casal, exames de imagem do útero, avaliação hormonal, rastreio de trombofilias e fatores autoimunes, sempre orientada pelo histórico clínico do casal.
A fertilização in vitro com estudo genético dos embriões ajuda nesses casos?
Em casos selecionados, o estudo genético dos embriões antes da transferência pode reduzir o risco de nova perda relacionada a alterações cromossômicas, mas a indicação deve ser individualizada.
Falar no WhatsApp: (38) 99730-0133
Revisão médica: Dr. Orestes Prudêncio — CRM-MG 25699, RQE 8172, especialista em Reprodução Humana, com 30 anos de pioneirismo em Montes Claros.
Documento revisado pelo Dr. Orestes Prudêncio, CRM/MG 25699, especialista em reprodução humana com 30 anos de pioneirismo em Montes Claros.
Fontes científicas adotadas pela clínica
American Society for Reproductive Medicine (ASRM)
Red Latinoamericana de Reproducción Asistida (REDLARA)
European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE)
Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA)
