Receber o diagnóstico de câncer de mama em idade reprodutiva traz duas urgências ao mesmo tempo: tratar a doença e proteger o sonho de ter filhos. A boa notícia é que, na maioria dos casos, as duas coisas podem caminhar juntas, desde que a conversa sobre fertilidade aconteça antes de a quimioterapia começar.

Por que falar de fertilidade antes do tratamento
A atualização 2025 da diretriz da ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica) orienta que o risco de infertilidade seja discutido com todos os pacientes em idade reprodutiva o mais cedo possível, antes de iniciar o tratamento. Isso vale independentemente do esquema planejado. A quimioterapia pode reduzir a reserva de óvulos, e o efeito depende da idade, da reserva ovariana de cada mulher e dos medicamentos usados. Por isso, quem decide é a equipe em conjunto: o oncologista define o prazo seguro e o especialista em reprodução define a melhor estratégia dentro dele.
Quais são as opções de preservação
Congelamento de óvulos ou embriões. É a opção mais consolidada. Hoje a estimulação ovariana pode começar em qualquer fase do ciclo, sem esperar a próxima menstruação, e leva cerca de duas semanas até a coleta dos óvulos. Os óvulos são vitrificados e ficam armazenados em nitrogênio líquido. Se houver parceiro ou doador, também é possível congelar embriões. Veja mais em congelamento de óvulos e em preservação da fertilidade.
Estimulação com proteção hormonal. Em tumores sensíveis a hormônios, a estimulação pode ser associada a medicamentos como o letrozol, que mantêm os níveis de estradiol mais baixos durante o processo. O protocolo é definido caso a caso com o oncologista. Entenda como funciona a estimulação em estimulação ovariana na FIV.
Outras estratégias. Em situações específicas, a equipe pode discutir o uso de análogos de GnRH durante a quimioterapia, que não substituem o congelamento, e o congelamento de tecido ovariano em serviços com essa disponibilidade. A indicação depende do tipo de tumor, da idade e da urgência do tratamento.
E depois do tratamento: dá para engravidar?
Para muitas mulheres, sim. Em tumores com receptor hormonal positivo, o tratamento hormonal costuma durar anos. O estudo POSITIVE (Partridge e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2023) acompanhou mulheres que interromperam temporariamente a terapia endócrina, por até dois anos, para tentar engravidar. Nos três anos de seguimento, não houve aumento do risco de recorrência em relação a um grupo de comparação externo. Os autores ressaltam que o seguimento ainda é de médio prazo e que a decisão deve ser individualizada com o oncologista.
Ter óvulos ou embriões congelados antes do tratamento é uma vantagem prática: a gestação pode ser planejada com a equipe quando o oncologista liberar, sem depender da reserva ovariana que restou.
Quanto tempo existe para decidir
Normalmente há uma janela entre o diagnóstico, os exames e o início da quimioterapia. Uma consulta rápida com o especialista em reprodução, de preferência já nos primeiros dias, costuma bastar para saber se a preservação cabe nesse prazo. Quando a distância é um obstáculo, a primeira conversa pode ser feita por telemedicina. Se você ainda está montando a investigação, veja também a primeira consulta em reprodução assistida.
Importante: a preservação não garante gravidez futura. As chances dependem principalmente da idade na época do congelamento e do número de óvulos obtidos, e é esse cenário real que conversamos com cada paciente.
Perguntas frequentes
A estimulação ovariana piora o câncer de mama?
Os protocolos usados em pacientes oncológicas são desenhados justamente para limitar a exposição ao estradiol, muitas vezes com letrozol. A decisão é sempre conjunta com o oncologista, e os dados disponíveis são tranquilizadores, mas cada tumor tem suas particularidades.
Preciso esperar a menstruação para começar?
Não necessariamente. A estimulação com início em qualquer fase do ciclo é uma prática reconhecida em preservação oncológica e evita perder semanas de um prazo curto.
Posso engravidar naturalmente depois da quimioterapia?
Algumas mulheres recuperam a função ovariana, outras não. Não há como prever com segurança, por isso a preservação antes do tratamento é a forma mais segura de proteger essa possibilidade.
Quando posso tentar engravidar depois do tratamento?
O momento é definido com o oncologista, considerando o tipo de tumor, o tratamento realizado e a necessidade de terapia hormonal. Há situações em que se pode fazer uma pausa planejada; isso nunca deve ser decidido sozinha.
Quer conversar sobre o seu caso?
Cada situação tem particularidades. Para uma avaliação individual com nossa equipe, fale conosco pelo WhatsApp (38) 99730-0133. Quem mora fora de Montes Claros pode começar com uma consulta por telemedicina e vir à clínica somente quando necessário.
Conteúdo informativo, com revisão médica do Dr. Orestes Prudêncio (CRM-MG 25699 | RQE 8172). Não substitui consulta médica.
Equipe Fértil Reprodução Humana: Dr. Orestes Prudêncio, Dr. Matheus Coelho Prudêncio e Rubia Coelho Prudêncio.
Fontes
- Su HI, Lacchetti C, Letourneau J, et al. Fertility preservation in people with cancer: ASCO guideline update. J Clin Oncol, 2025. Resumo: The ASCO Post.
- Partridge AH, et al. Interrupting endocrine therapy to attempt pregnancy after breast cancer (estudo POSITIVE). N Engl J Med 2023;388:1645-1656.
- ASRM. ReproductiveFacts.org – informações para pacientes sobre preservação da fertilidade.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.320/2022, normas éticas para a reprodução assistida.
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