É uma das perguntas mais frequentes de quem vai congelar os próprios óvulos ou recebe óvulos de uma doadora: usar óvulos vitrificados (congelados) reduz a chance de ter um bebê, em comparação com óvulos frescos?
A resposta curta é: nas revisões mais robustas da literatura, os resultados clínicos — fertilização, formação de blastocisto, gravidez e nascido vivo — costumam ser semelhantes entre óvulos vitrificados e óvulos frescos, especialmente quando a vitrificação é feita com a técnica atual (vitrificação ultrarrápida, método Cryotop ou equivalente) por um laboratório experiente. A ressalva importante é que “semelhante em grupo” não é o mesmo que “garantido para cada caso”: a idade da mulher no momento do congelamento, o número de óvulos e a experiência do laboratório continuam sendo decisivos.

O que muda quando um óvulo é vitrificado?
A vitrificação é uma forma ultrarrápida de congelamento. Em vez de formar cristais de gelo — que podem danificar a estrutura do óvulo —, a célula é resfriada tão rapidamente, com o auxílio de crioprotetores, que passa direto para um estado “vítreo”, sem formação de cristais. Isso é diferente do método antigo, o congelamento lento (slow freezing), hoje considerado ultrapassado para óvulos.
Quando chega o momento de usar o óvulo, ele é aquecido (desvitrificado) e, se sobreviver ao processo — o que ocorre na grande maioria das vezes com a técnica atual —, segue o mesmo caminho de um óvulo fresco: fertilização por ICSI, cultivo do embrião e transferência.
Ponto-chave: vitrificar não é o mesmo que “congelar devagar”. A técnica usada faz diferença real nos resultados — por isso a comparação relevante hoje é vitrificação vs. óvulo fresco, não “congelado vs. fresco” de forma genérica.
O que mostram os estudos que compararam as duas técnicas diretamente?
Um dos estudos mais citados nessa área dividiu óvulos da mesma doadora, no mesmo ciclo de estimulação: parte foi vitrificada e depois aquecida, e parte foi usada fresca no mesmo dia, em duas receptoras diferentes. Esse desenho é importante porque elimina a variável idade/qualidade ovocitária — a diferença encontrada só pode vir da técnica de congelamento.
Nesse estudo, a sobrevivência ao descongelamento foi de 96,7%. A taxa de fertilização foi 76,3% no grupo vitrificado e 82,2% no grupo fresco; a formação de blastocisto foi praticamente igual (48,7% vs. 47,5%); e a gravidez clínica por transferência foi de 65,2% (Cobo A. et al., Fertility and Sterility, 2008 — ver referência 1).
Note que a fertilização foi um pouco menor no grupo vitrificado, mas isso não se traduziu em menos blastocistos, nem em menor taxa de gravidez — os embriões que se formaram tiveram qualidade equivalente.
E quando o volume de casos é bem maior?
Um estudo publicado no Journal of Assisted Reproduction and Genetics comparou 504 ciclos de doação de óvulos: 78 com óvulos frescos e 426 com óvulos de um banco de vitrificados. A taxa de fertilização (2PN) foi 77,4% (vitrificados) vs. 74,5% (frescos); a formação de blastocisto foi 51,6% vs. 48,8%; e a gravidez clínica foi 59,0% vs. 60,9% — nenhuma diferença estatisticamente significativa (Nagy Z.P. et al., J Assist Reprod Genet, 2017 — ver referência 2).
Um estudo retrospectivo mais recente (2018–2023, 214 ciclos de doação), que também acompanhou a taxa cumulativa de nascido vivo — considerando todas as transferências de um mesmo ciclo, não só a primeira — chegou à mesma conclusão: 69,6% (frescos) vs. 66,6% (vitrificados), sem diferença significativa (ver referência 3).

E as revisões sistemáticas e meta-análises — o que dizem quando se somam todos os estudos?
Estudos isolados podem ter vieses. Por isso, revisões sistemáticas com meta-análise — que combinam vários estudos, incluindo ensaios clínicos randomizados — são a evidência mais forte disponível.
Uma meta-análise publicada em Human Reproduction Update (2017), que reuniu ensaios clínicos randomizados, não encontrou diferença estatisticamente significativa na taxa de gravidez clínica entre óvulos vitrificados e frescos: risco relativo de 1,03 por mulher randomizada, 1,01 por ciclo e 1,02 por óvulo utilizado. A mesma revisão mostrou que a vitrificação é claramente superior ao congelamento lento antigo (risco relativo de sobrevivência embrionária de 1,59) (ver referência 4).
Uma revisão Cochrane sobre criopreservação de óvulos também apontou vantagem da vitrificação sobre o congelamento lento — gravidez clínica quase 4 vezes mais provável —, mas os próprios autores destacam que os estudos disponíveis eram poucos e pequenos (2 estudos, 106 mulheres), o que exige cautela na interpretação (ver referência 5).
Nas suas diretrizes de 2021, a American Society for Reproductive Medicine (ASRM) resume: em programas de doação de óvulos, o uso de óvulos vitrificados é “uma opção razoável comparada a óvulos doados frescos”, com confiança moderada na evidência. Para uso dos próprios óvulos vitrificados eletivamente, a taxa de gravidez em andamento por transferência parece semelhante, mas a ASRM pondera que ainda faltam dados de taxa cumulativa de nascido vivo em números maiores — um ponto em que a pesquisa segue avançando (ver referência 6).
Isso vale também para quem recebe óvulos de doadora?
Sim — e é justamente em programas de doação de óvulos que existem mais dados diretos, porque permitem comparar os dois grupos dentro da mesma população de receptoras. Os estudos citados acima (Cobo 2008, Nagy 2017, coorte de 2025) são todos de doação de óvulos, e nenhum encontrou diferença relevante na taxa de gravidez ou de nascido vivo entre usar o óvulo fresco no mesmo ciclo da doadora ou um óvulo vitrificado de um banco.
Na prática, isso é o que torna possível a logística dos bancos de óvulos doados — sem eles, doadora e receptora precisariam sincronizar os ciclos menstruais, o que é operacionalmente muito mais difícil.

Os bebês nascidos de óvulos vitrificados nascem saudáveis?
Essa é, com razão, uma das maiores preocupações. Os dados disponíveis até o momento são tranquilizadores:
- Um estudo específico sobre desfechos obstétricos e perinatais de bebês nascidos de óvulos vitrificados não encontrou aumento de malformações congênitas nem piora nos desfechos gestacionais, em comparação com FIV convencional (ver referência 7).
- Um acompanhamento de crianças de 2 anos nascidas de doação de óvulos vitrificados, comparadas a crianças nascidas de doação de óvulos frescos, mostrou saúde e desenvolvimento semelhantes entre os grupos (ver referência 8).
A própria ASRM reforça, em sua diretriz de 2021, que os “desfechos neonatais parecem semelhantes” entre óvulos criopreservados e frescos.
Então por que às vezes se ouve falar em diferença?
Alguns pontos explicam a percepção de que óvulos vitrificados “rendem menos”:
- A técnica do laboratório importa muito. Vitrificação exige protocolo rigoroso — tempo de exposição ao crioprotetor, velocidade de resfriamento, experiência do embriologista. Laboratórios com pouca experiência podem ter taxas de sobrevivência mais baixas do que os números descritos aqui.
- Diferenças pequenas em fertilização não são o mesmo que diferença em nascido vivo. No estudo de Cobo 2008, por exemplo, a fertilização foi ~6 pontos percentuais menor no grupo vitrificado, mas isso não reduziu a taxa de blastocisto nem de gravidez.
- Faltam ainda mais dados de longo prazo para congelamento eletivo dos próprios óvulos (fora da doação), especialmente sobre taxa cumulativa de nascido vivo — é uma área de pesquisa ativa, não porque os resultados sejam ruins, mas porque muitas mulheres que congelaram ainda não retornaram para usar os óvulos.
O que a evidência permite concluir
Confiança moderada a alta: em doação de óvulos, vitrificação com técnica atual produz resultados de fertilização, blastocisto, gravidez e nascido vivo comparáveis aos de óvulos frescos.
Confiança moderada: a saúde de bebês nascidos de óvulos vitrificados é comparável à de bebês nascidos de óvulos frescos nos estudos disponíveis até o momento.
Confiança ainda limitada: taxa cumulativa de nascido vivo de longo prazo para vitrificação eletiva dos próprios óvulos, por escassez de séries grandes com seguimento completo.
Perguntas frequentes
Óvulo vitrificado tem menos chance de virar bebê do que óvulo fresco?
Nos estudos disponíveis, a taxa de gravidez e de nascido vivo tende a ser semelhante, especialmente em programas de doação de óvulos. Diferenças pequenas em fertilização não costumam alterar a taxa final de gravidez.
A vitrificação é a mesma coisa que o congelamento lento antigo?
Não. São técnicas diferentes. A vitrificação substituiu o congelamento lento porque apresenta taxas de sobrevivência e resultados clínicos superiores.
Bebês nascidos de óvulos vitrificados têm mais risco de malformação?
Os estudos disponíveis até o momento não mostraram aumento de malformações ou piora de desfechos perinatais em comparação com FIV convencional.
Se eu congelar meus óvulos hoje, tenho garantia de engravidar no futuro?
Não. Nenhuma técnica — vitrificada ou fresca — garante gravidez. A vitrificação preserva uma possibilidade; o resultado final depende de vários fatores, incluindo idade no congelamento e número de óvulos.
Todos os laboratórios têm os mesmos resultados com vitrificação?
Não necessariamente. A técnica é sensível ao protocolo e à experiência do laboratório — por isso os números de sobrevivência e de resultados variam entre centros.
Existe diferença entre usar óvulo vitrificado próprio ou de doadora?
A maior parte dos dados comparativos vem de programas de doação, onde os resultados entre fresco e vitrificado são semelhantes. Para uso eletivo dos próprios óvulos, os princípios biológicos são os mesmos, mas ainda há menos dados de longo prazo sobre taxa cumulativa de nascido vivo.
Quer entender qual opção faz mais sentido no seu caso?
A equipe da Fértil pode avaliar sua idade, reserva ovariana e objetivo reprodutivo para discutir se vitrificação, uso de óvulos frescos ou doação de óvulos é o caminho mais adequado.
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Revisão médica
Conteúdo revisado pelo Dr. Orestes Prudêncio — CRM-MG 25.699, especialista em Reprodução Humana, com 30 anos de pioneirismo em reprodução assistida em Montes Claros.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta e avaliação médica individualizada. Números citados são médias de estudos publicados e variam conforme idade, diagnóstico, protocolo e laboratório.
Fontes científicas adotadas pela Fértil Reprodução Humana
American Society for Reproductive Medicine — ASRM
Diretrizes e pareceres sobre criopreservação de óvulos e reprodução assistida. (asrm.org)
European Society of Human Reproduction and Embryology — ESHRE
Diretrizes europeias de reprodução assistida. (eshre.eu)
Red Latinoamericana de Reproducción Asistida — RedLara
Referência latino-americana em reprodução assistida e registros de tratamentos. (redlara.com)
Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida — SBRA
Referência brasileira em reprodução assistida e educação científica. (sbra.com.br)
Estudos científicos citados neste artigo
- Cobo A, Domingo J, Pérez S, Crespo J, Remohí J, Pellicer A. Comparison of concomitant outcome achieved with fresh and cryopreserved donor oocytes vitrified by the Cryotop method. Fertility and Sterility, 2008.
- Nagy ZP, Anderson RE, Feinberg EC, Hayward B, Mahony MC. Egg donation of vitrified oocytes bank produces similar pregnancy rates by blastocyst transfer when compared to fresh cycle. Journal of Assisted Reproduction and Genetics, 2017.
- Comparison of Cumulative Live Birth Rates Between Fresh and Vitrified Donor Oocytes, estudo de coorte retrospectivo, 2018–2023.
- Rienzi L, Gracia C, Maggiulli R, et al. Oocyte, embryo and blastocyst cryopreservation in ART: systematic review and meta-analysis comparing slow-freezing versus vitrification. Human Reproduction Update, 2017.
- Cochrane Database of Systematic Reviews. Vitrification in comparison to slow freezing for egg cryopreservation in women undergoing assisted reproduction (CD010047).
- American Society for Reproductive Medicine — Practice Committee. Evidence-based outcomes after oocyte cryopreservation for donor oocyte in vitro fertilization and planned oocyte cryopreservation: a guideline, 2021.
- Cobo A, Serra V, Garrido N, et al. Obstetric and perinatal outcome of babies born from vitrified oocytes. Fertility and Sterility, 2014.
- Levi-Setti PE, et al. Health of 2-year-old children born after vitrified oocyte donation in comparison with peers born after fresh oocyte donation. Human Reproduction Open, 2021.
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