Alguns estudos observacionais encontraram associação entre vitamina D baixa e menor taxa de nascidos vivos após a fertilização in vitro (FIV), mas essa associação não se repete de forma consistente para a taxa de gravidez clínica, e os estudos que testaram a suplementação de vitamina D não confirmam, de forma robusta, que corrigir o nível aumente as chances de sucesso do tratamento. A evidência disponível até agora é heterogênea e insuficiente para uma recomendação de rotina igual para todas as pacientes.
Neste artigo você vai entender:
- O que é a vitamina D e por que ela passou a ser estudada na reprodução assistida
- O que mostram os estudos sobre vitamina D baixa e o resultado da FIV
- Se suplementar vitamina D antes do tratamento aumenta as chances de gravidez
- Quando pode fazer sentido dosar a vitamina D antes de iniciar a FIV
- Como a deficiência costuma ser tratada, quando confirmada pelo exame
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O que é a vitamina D e por que ela é estudada na reprodução assistida?
A vitamina D é produzida principalmente pela exposição da pele à luz solar e também obtida, em menor quantidade, por alguns alimentos e suplementos. Além do papel já bem estabelecido na saúde óssea, pesquisadores identificaram receptores de vitamina D em tecidos ligados à reprodução, como o endométrio, o ovário e os espermatozoides — o que levantou a hipótese de que ela também pudesse influenciar, de algum modo, a fertilidade e o resultado de tratamentos como a FIV.
É importante diferenciar duas perguntas que costumam se misturar: (1) mulheres com vitamina D baixa têm resultado pior na FIV? e (2) suplementar vitamina D antes do tratamento melhora esse resultado? São perguntas diferentes, com respostas diferentes — e é essa diferença que costuma gerar confusão quando o assunto aparece em redes sociais ou conversas entre pacientes.
Vitamina D baixa está associada a pior resultado na FIV? O que mostram os estudos observacionais
Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2018 na revista Reproductive Biology and Endocrinology reuniu estudos de coorte sobre vitamina D e resultados de FIV/ICSI. O achado principal: mulheres com deficiência de vitamina D tiveram uma taxa de nascidos vivos menor do que mulheres com níveis adequados (risco relativo em torno de 0,74, com base em 3 estudos e 655 mulheres). Já para a taxa de gravidez clínica, reunindo 9 estudos e mais de 2.000 mulheres, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
Esse tipo de resultado — associação com um desfecho (nascido vivo), mas não com outro (gravidez clínica) — é um sinal de que a relação entre vitamina D e fertilidade ainda não está totalmente esclarecida. Os próprios autores destacam uma limitação importante: todos os estudos incluídos eram observacionais, ou seja, mostram associação, não comprovam causa. Mulheres com vitamina D baixa podem diferir das demais em outros fatores — exposição solar, peso corporal, hábitos alimentares, condições de saúde — que também influenciam a fertilidade e que nem sempre são totalmente controlados nesses estudos.

Suplementar vitamina D antes da FIV aumenta as chances de gravidez?
Aqui a evidência fica ainda mais dividida. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2023 na mesma revista Reproductive Biology and Endocrinology, reunindo 12 estudos (a maioria ensaios clínicos randomizados) e mais de 2.300 participantes, encontrou uma chance maior de gravidez clínica entre quem recebeu suplementação (razão de chances em torno de 1,70), mas com heterogeneidade alta entre os estudos — ou seja, resultados bastante diferentes de um estudo para outro — e sem redução na taxa de aborto. A taxa de nascidos vivos nem chegou a ser reunida em conjunto por falta de dados comparáveis entre os estudos. Vale notar ainda que, em boa parte dos estudos incluídos, a vitamina D foi testada combinada a outros compostos (como mio-inositol, melatonina ou ácido fólico), o que torna difícil isolar o efeito da vitamina D por si só.
Já uma metanálise sequencial de ensaios clínicos, publicada em 2022 na revista Frontiers in Endocrinology e reunindo 5 estudos randomizados, não encontrou diferença estatisticamente significativa na taxa de gravidez clínica entre quem suplementou vitamina D e quem não suplementou. Mais importante: a análise sequencial — um método estatístico que avalia se já existem dados suficientes para uma conclusão confiável — mostrou que o número de participantes acumulado nos estudos disponíveis ainda está bem abaixo do necessário para afirmar, com segurança, se a suplementação funciona ou não. Em outras palavras: a ciência ainda não tem uma resposta definitiva, nem a favor, nem contra.
Juntando os dois lados: existe um sinal de que a suplementação pode ajudar em algum grau, mas esse sinal vem de estudos heterogêneos, muitas vezes combinando vitamina D com outros compostos, e ainda sem confirmação pela quantidade de evidência que os próprios pesquisadores consideram necessária. Isso não significa que suplementar vitamina D seja inútil — significa que, hoje, não é possível prometer que a suplementação, isoladamente, vai aumentar a chance de sucesso da FIV.
Quando pode fazer sentido dosar a vitamina D antes de iniciar o tratamento?
Mesmo sem uma recomendação de rotina específica para fertilidade, dosar a vitamina D antes de iniciar a FIV pode fazer sentido dentro de uma avaliação de saúde geral mais ampla — a mesma lógica já usada para outros ajustes de preparo do corpo antes da FIV, como controle da tireoide, da glicemia e da pressão arterial. Alguns grupos têm maior chance de apresentar níveis baixos, como pessoas com pouca exposição solar no dia a dia, com obesidade, com pele mais pigmentada ou com determinadas restrições alimentares — mas a decisão de pedir o exame, interpretar o resultado e, se necessário, suplementar deve ser feita pela equipe médica, dentro do contexto clínico de cada paciente.
Um ponto de atenção importante: suplementar vitamina D por conta própria, em doses altas e sem orientação médica, não é uma conduta segura. Embora seja raro, o excesso de vitamina D pode levar a hipercalcemia (aumento do cálcio no sangue), com sintomas que vão de náusea e fraqueza a problemas renais em casos mais graves. Vitamina D não é um suplemento isento de risco em qualquer dose.
Como é tratada a deficiência, quando confirmada pelo exame?
Quando o exame de sangue confirma um nível baixo de vitamina D, a reposição costuma ser feita de forma individualizada, considerando o grau da deficiência, o peso da paciente e outros fatores clínicos — não existe uma dose única padronizada para todas as pessoas. A Resolução CFM nº 2.320/2022, que normatiza a reprodução assistida no Brasil, estabelece que indicações adicionais dentro do tratamento devem ser fundamentadas por critérios técnicos e científicos documentados pelo médico responsável, o que também se aplica à decisão de investigar e tratar a vitamina D dentro do contexto da FIV.
Na prática, isso significa que não existe uma resposta igual para todas as pacientes: a equipe médica avalia o histórico, o resultado do exame e o conjunto do planejamento do tratamento antes de decidir se — e como — a vitamina D entra nesse plano.

Em resumo
- Estudos observacionais associaram vitamina D baixa a menor taxa de nascidos vivos na FIV, mas não a uma diferença consistente na taxa de gravidez clínica — e associação não é o mesmo que causa comprovada.
- Estudos sobre suplementação de vitamina D mostram sinais mistos: uma metanálise de 2023 encontrou mais gravidez clínica com suplementação, mas com alta heterogeneidade; uma análise sequencial de 2022 concluiu que a evidência ainda é insuficiente para uma conclusão definitiva.
- Não há, até o momento, recomendação de sociedades médicas para suplementar vitamina D de forma rotineira em todas as pacientes de FIV.
- Dosar a vitamina D antes do tratamento pode fazer sentido como parte de uma avaliação de saúde mais ampla, sobretudo em pacientes com fatores de risco conhecidos para deficiência.
- Suplementar por conta própria, em doses altas e sem exame ou orientação médica, não é seguro.
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Conteúdo revisado pelo Dr. Orestes Prudêncio — CRM-MG 25699, RQE 8172, especialista em Reprodução Humana, com atuação pioneira em Montes Claros desde 1997.
Equipe Fértil Reprodução Humana: Dr. Orestes Prudêncio, Dr. Matheus Coelho Prudêncio (CRM-MG 79730, RQE 66367) e Rubia Coelho Prudêncio.
Perguntas frequentes sobre vitamina D e fertilização in vitro
Vitamina D baixa atrapalha o resultado da fertilização in vitro?
Estudos observacionais associaram vitamina D baixa a uma taxa menor de nascidos vivos após a FIV, mas não encontraram diferença consistente na taxa de gravidez clínica. Essa é uma associação, não uma relação de causa comprovada — outros fatores de saúde podem estar envolvidos. Não é correto afirmar que a vitamina D baixa, isoladamente, determina o resultado do tratamento.
Fazer exame de vitamina D antes da FIV é obrigatório?
Não. Não existe recomendação de sociedades médicas para dosagem de rotina em todas as pacientes de FIV. A indicação do exame costuma fazer parte de uma avaliação de saúde mais ampla antes do tratamento, decidida pela equipe médica caso a caso.
Tomar suplemento de vitamina D sem exame pode fazer mal?
Pode. Embora seja raro, o excesso de vitamina D pode causar hipercalcemia (aumento do cálcio no sangue), com sintomas que vão de náusea e fraqueza a problemas renais em casos mais graves. A suplementação em dose alta deve ser orientada por exame e acompanhamento médico, não decidida por conta própria.
Qual o nível de vitamina D considerado baixo?
Os estudos sobre fertilidade usaram diferentes pontos de corte para definir deficiência, a maioria entre 20 e 30 ng/mL, sem um valor único universalmente adotado para o contexto reprodutivo. A interpretação do resultado do exame deve ser feita pela equipe médica, considerando o laboratório utilizado e o contexto clínico da paciente.
Vitamina D ajuda na qualidade dos óvulos ou dos embriões?
A hipótese é estudada, já que receptores de vitamina D foram identificados no ovário e no endométrio, mas os estudos disponíveis até agora não demonstram, de forma robusta, que corrigir a vitamina D melhore a qualidade embrionária. A maior parte da evidência disponível foca em taxas de gravidez e nascidos vivos, não na qualidade do embrião isoladamente.
Suplementar vitamina D garante mais chance de engravidar na FIV?
Não. Os estudos mostram resultados mistos e, em alguns casos, favoráveis à suplementação, mas nenhum deles permite afirmar que suplementar vitamina D garanta uma chance maior de gravidez. A própria literatura científica pede mais estudos antes de qualquer recomendação definitiva nesse sentido.
Fontes científicas
- Zhao J, Liu S, Wang Y, et al. Whether vitamin D was associated with clinical outcome after IVF/ICSI: a systematic review and meta-analysis. Reproductive Biology and Endocrinology, 2018;16:13.
- Meng X, Zhang J, Wan Q, et al. Influence of Vitamin D supplementation on reproductive outcomes of infertile patients: a systematic review and meta-analysis. Reproductive Biology and Endocrinology, 2023;21:17.
- Zhou X, Wu X, Luo X, et al. Effect of Vitamin D Supplementation on In Vitro Fertilization Outcomes: A Trial Sequential Meta-Analysis of 5 Randomized Controlled Trials. Frontiers in Endocrinology, 2022;13:852428.
- Resolução CFM nº 2.320, de 20 de setembro de 2022 — Normas éticas para utilização das técnicas de reprodução assistida. Conselho Federal de Medicina (CFM).
Conteúdo educativo; as orientações individuais da equipe assistencial devem ser seguidas.
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Publicado em: 17 de outubro de 2026.
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Conteúdo revisado por Dr. Orestes Prudêncio
Dr. Orestes Prudêncio, CRM-MG 25699, RQE 8172, médico especialista em reprodução humana, fundador da Fértil Reprodução Humana, em Montes Claros, MG.
A Fértil atua exclusivamente com reprodução assistida em Montes Claros desde 1997, tem certificação REDLARA Gold e mais de 5.000 nascimentos. A equipe médica e de embriologia inclui o Dr. Matheus Coelho Prudêncio e a embriologista Rubia Coelho Prudêncio.
As informações deste artigo são educativas e não substituem a avaliação individual.

